Uma nova maneira de ser Igreja?

O estado da situação

Embora sempre tenham ocorrido mudanças tecnológicas, políticas, sociais e culturais ao longo da História, essas transformações nunca aconteceram com tanta rapidez e profundidade como as que abalaram o mundo nos últimos 50 anos. Não somos meros observadores passivos desta mutação, mas sim agentes ativos quando usamos o computador e a Internet, quando usamos o nosso telefone inteligente, quando trabalhamos, quando frequentamos um grande centro comercial, quando organizamos os nossos lazeres. As palavras-chave desta mudança são, entre outras, a abolição das distâncias, a comunicação globalizada, a itinerância, o individualismo, a relativização das grandes crenças coletivas…

Estes e outros fatores têm evoluído a um nível inimaginável ainda há poucas décadas! Diz-se que o mundo em que temos vivido desde o século XIX será irreconhecível lá para 2030. Na perspetiva de muitos observadores atentos à dinâmica das grandes transformações sociais, estamos, neste momento, a encetar a fase final desta mutação civilizacional.

A consequência imediata são as turbulências que abalam todas as instituições conhecidas, entre as quais se encontra a Igreja cristã com todas as suas variantes. Assistimos a uma crise sem precedentes do cristianismo ocidental, particularmente do Catolicismo romano, do Anglicanismo, do Luteranismo e do Presbiterianismo. O surpreendente retorno da prática religiosa numa ex-União Soviética oficialmente ateia, depois de 70 anos de anticlericalismo, de perseguição e de inúmeros entraves às atividades eclesiásticas, não garante que em regime de democracia plena também as Igrejas ortodoxas eslavas não sejam atingidas pela mesma indeterminação das certezas ou pela “era do vazio”, tão bem descrita por Gilles Lipovetaky, que caracteriza atualmente a sociedade ocidental.

De igual modo, as Igrejas chamadas “evangélicas”, oriundas do despertar espiritual que sacudiu o protestantismo tradicional nos finais do século XVIII e durante o século XIX, são concorrenciadas por movimentos que, embora de raiz protestante-evangélica, se distanciam do protestantismo histórico através da prática de um proselitismo agressivo, propondo experiências emocionais imediatas e prosperidade social e financeira. A utilização descomplexada e intensiva dos meios de comunicação audiovisuais traz-lhes um sucesso evidente: mas será isso um fenómeno durável? A popularidade destes movimentos, o à-vontade com que utilizam as técnicas do marketing e os meios de comunicação modernos, fascina as Igrejas tradicionais que se recusam, apesar de tudo, a considerar que os fins justificam os meios. Muitos observadores pensam que estes movimentos, que se apoiam frequentemente numa figura carismática ou numa temática particularmente apelativa num determinado contexto social, são, finalmente, “empresas eclesiais” condenadas a implantarem-se no mercado religioso, estruturando-se e acabando por sofrer o mesmo desgaste que as Igrejas tradicionais, ou a desparecerem rapidamente sendo substituídos por movimentos mais empreendedores.

Obsolescência das Igrejas tradicionais

De qualquer modo, para os nossos contemporâneos, deixou de ser possível confiar numa organização produtora de sentido, como tem sucedido até agora. Depois do fracasso das instituições religiosas em evitar as guerras, em prevenir ou deter genocídios, em preservar a natureza, são poucos os que contam com elas. Pelo contrário, supõe-se que cada um de nós tem a responsabilidade de buscar sentido para a sua vida, por si mesmo, sem necessariamente recorrer às sabedorias tradicionais.

Em suma, as igrejas não são combatidas racionalmente, como aconteceu na era moderna, mas simplesmente consideradas obsoletas. Oferecer serviços padronizados, prontos a pensar, prontos a celebrar, tornou-se insignificante e supérfluo para muitas pessoas. As aspirações espirituais são hoje mais de índole individual do que coletiva. A espiritualidade deixou de ser primeiramente teísta, exprimindo-se nas mais diversas formas de meditação, contemplação da natureza e vida artística. Embora o ateísmo militante seja percentualmente pouco significativo, existe, de facto, um agnosticismo ou ateísmo prático maioritário.

O teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), enforcado pelos nazis, escrevia, numa das suas cartas redigidas na prisão, que o mundo se tinha tornado autónomo em relação às instituições religiosas de referência, e que doravante as pessoas viviam, segundo a formulação da teologia medieval por ele citada, etsi deus non daretur (como se Deus não existisse). A intuição do filósofo Nietsche que imagina um louco que se introduz num mercado, lanterna acesa, gritando “Deus morreu e fomos nós que o matámos! Homicidas de homicidas, como nos consolaremos? O que o mundo possuía de mais sagrado e de mais poderoso perdeu o sangue sob os nossos cutelos – quem apagará de nós este sangue? (…) Não seremos nós forçados a tornar-nos deuses para parecermos ao menos dignos deles?”, confirmou-se com a ascensão do nazismo e com a secularização da sociedade. Bonhoeffer não viveu o tempo suficiente para verificar a justeza do requiem nietzschiano pela morte do Deus e pelos valores da tradição cristã, tal como a justeza da sua tese sobre a autonomia da sociedade em relação aos valores religiosos, mas nós sabemos que isso está a acontecer. Tal como ele dizia, o mundo tornou-se “adulto” e é nesta nova sociedade tecnológica, em que a hipótese da existência de um deus deixou de ser indispensável, que as Igrejas penam em assumir a sua identidade. Tudo tem de ser refeito num mundo que já não reunirá, dentro de uma geração, o mundo anterior; temos de encontrar maneira de nos orientarmos espiritualmente num mundo fragmentado e em constante mudança. Tudo isto é, provavelmente, trivial. No entanto, assinalar esta nova realidade em que nos encontramos é a base a partir da qual podemos interrogar-nos realisticamente sobre o futuro do cristianismo ocidental.

Pensando nas formas conhecidas e presentes da Igreja, podemos dizer que, afinal, a Igreja Cristã, ao longo dos seus dois mil anos de história, sob o capricho de heresias e protestos de todos os tipos, desenvolveu uma grande capacidade de resiliência. Não admira, portanto, que alguns acreditem numa possível restauração de um cristianismo triunfante: “Estamos no vale da onda”, dizem eles, “forçosamente as coisas vão melhorar”, “vamos reorganizar-nos”, “vamos aproximar-nos dos cristãos sem Igreja e pedir-lhes para que não nos abandonem, pois, a nossa igreja é depositária dos valores a que estão profundamente ligados”! Mas será isso possível? A avaliação dos resultados das reformas eclesiásticas seguindo modelos de reorganização empresarial, tais como, racionalização da gestão do pessoal e dos recursos disponíveis, reconsideração da prestação de serviços à população, implementação de novos serviços sociais e de lazer, afirmação dos valores morais de que a Igreja se considera depositária, mostra que tais reformas não têm produzido os efeitos esperados. Pelo contrário, verifica-se que as medidas de natureza tecnocrática se traduzem frequentemente – e paradoxalmente! – em desinteresse dos leigos, desmotivação dos ministros e insignificância na sociedade. Talvez porque os métodos de gestão empresariais, de que a Igreja necessita, apesar de tudo, entram frequentemente em conflito com a cultura eclesial feita de hábitos sedimentados ao longo de séculos.

Pode a Igreja renovar-se?

Algo tem de acontecer. Independentemente da convicção de que a missão da Igreja é de ordem sobrenatural, pensa-se que o cristianismo ocidental ainda tem capacidade para recuperar o seu dinamismo ou capacidade criativa para enfrentar esta crise sem precedentes. Mas como? Se questionarmos os cristãos “sem igreja”, aqueles crentes desiludidos que não desejam envolver-se institucionalmente, é-nos dito que existe um desfasamento entre a forma e o funcionamento da Igreja e a vida quotidiana. Há uma expectativa desiludida ainda que marcada, por vezes, de uma certa nostalgia dos “sinos da aldeia”. A Igreja deixou de ser pertinente apesar de não serem muito loquazes sobre o assunto. Dizem o seu desconforto por defeito, indo raramente além da constatação. Quanto aos outros, os tais ateus práticos, enraizou-se a ideia de que existe uma antinomia entre a religião e a espiritualidade. A primeira é fechada, liberticida, enquanto a segunda é positiva. A exacerbação dos conflitos inter-religiosos dá-lhes, de certo modo, razão.

Na realidade, as possibilidades de renovação da Igreja não são infinitas. Maurice Bellet [1] Cristianismo), padre e psicanalista, diz que há quatro hipóteses:

  1. O cristianismo desaparece. Daqui a uns anos poderá não haver igrejas, não porque tenham sido vítimas de perseguições, mas porque perderam o seu dinamismo e força persuasiva. Tal como desapareceram os deuses da antiguidade e só ficaram os mitos, os monumentos e as obras de arte, também ficarão os símbolos, os monumentos e as obras de arte do cristianismo secular. É uma hipótese inaceitável para a fé, mas perfeitamente plausível do ponto de vista da sociologia das religiões.
  2. O cristianismo dissolver-se-á na sociedade. O cristianismo não desaparece, mas, ao adotar os valores da sociedade, renuncia à sua originalidade e perde toda a relevância. Passa a ser um humanismo.
  3. O cristianismo continua. Mantemos, restauramos, reorganizamos, acomodamos, organizamos…, mas ainda por quanto tempo? Sem força profética, reduzido à sua expressão institucional, o cristianismo resigna-se a ser um serviço público.
  4. O cristianismo atreve-se a entrar em rutura. O sistema religioso herdado do passado, termina, inexoravelmente. Congratulamo-nos com a atual crise que é uma oportunidade de renovação e de criatividade, mas não sabemos qual será a forma que o Cristianismo tomará nos anos vindouros. Mas não será essa a essência do Evangelho?

Esta análise tem a vantagem de ser clara. Ela confirma-se pelo surgimento de uma série de movimentos, comunidades ou igrejas que, consciente ou inconscientemente, fazem parte de um processo de rutura com o paradigma ou modelo anterior da Igreja territorial, gozando de uma respeitabilidade garantida pela sua história, pelo Estado, ou pela estima dos cidadãos.

As igrejas emergentes

Estes movimentos, que se manifestaram nos países ocidentais nos últimos vinte anos, têm como primeira característica o serem pós-denominacionais.  Os grupos são constituídos, de maneira heteróclita,  por pessoas oriundas das grandes denominações históricas (católicos, anglicanos, presbiterianos, luteranos e metodistas) e das Igrejas evangélicas batistas e pentecostais, que decidiram agregar num património espiritual comum tudo o que cada tradição cristã considera como mais precioso. O ecumenismo é assim superado por um pluralismo confessional claramente assumido. Não se trata de buscar a unidade da Igreja na base de uma ortodoxia doutrinal imaginária, que seria, enfim, por todos reconhecida depois de muitos debates teológicos e preces pela unidade dos cristãos. Este substrato unanimista do ecumenismo tradicional é claramente rejeitado a favor de uma visão inclusivista do cristianismo, valorizadora das diferenças. Mas atenção: não se trata de um sincretismo cristão onde se acredita em tudo e no seu contrário! Trata-se de uma “ortodoxia generosa” onde as diferenças são vistas, à partida, como enriquecedoras e, só depois, se tornam objeto de debate fraternal. Nesta perspetiva, a segunda característica, é que estes movimentos encaram positivamente o mundo pós-moderno assimilando os valores veiculados pela ultramodernidade, como sejam, a autonomia individual, o respeito das crenças de cada um, a responsabilidade pelos seus próprios atos em vez da submissão a uma moral decretada por uma instituição, a tolerância em relação aos outros indivíduos. Como se percebe, estamos aqui em rutura tanto com o regime de cristandade, caracterizado pelo unanimismo eclesial tanto católico com protestante, bem como com a normatividade dogmática dos catecismos. O que se valoriza é a autenticidade, as emoções, a tolerância e as necessidades individuais, isto, porque uma religião que não integra a aspiração à felicidade e à harmonia interior não pode ser benéfica.

Um dos porta-vozes mais escutado deste movimento é o Pastor Brian McLaren [2], um antigo professor universitário de literatura que atualmente se tem dedicado à construção de redes de apoio à modernização das igrejas e à criação de comunidades cristãs inovadoras. Nas suas publicações propõe, concretamente:

  • Valorizar a tradição cristã como um todo, em vez das tradições particulares
  • Considerar a vida da igreja em rede, como um conjunto de interações, e não como um agregado de partes distintas
  • Praticar uma teologia do questionamento e não de respostas a perguntas conhecidas antecipadamente
  • Abordar as pessoas através de novos modos de comunicação, mais adequados às sensibilidades dos nossos contemporâneos (prioridade do audiovisual e do testemunho)
  • Ser fluido, isto é, aceitar que as formas de organização sejam relativas e se adaptem às modificações que, entretanto, as têm afetado: dimensão das comunidades, características do seu público, limitação dos recursos e da capacidade estratégica
  • Aproveitar ao máximo as oportunidades que a nova cultura lhes oferece. Em vez de olharem para o passado, ancorarem a sua esperança no que Deus está a fazer atualmente neste mundo, regozijando-se por isso

Para concluir, proponho uma metáfora: um transeunte está à beira do lago. Ele nota um grupo de pescadores sentados no chão, ao lado dos seus barcos ou acenando com as suas redes sem grande convicção. Olhando para eles, vê-se desânimo e fadiga nos seus rostos. Sente-se que trabalharam toda a noite, mas que provavelmente não apanharam nada. O passante gostaria de lhes dirigir uma palavra encorajadora. Mas o que é que lhes pode dizer? Talvez “força, amigos”, “mãos à obra”, “tentem de novo”, esperando que os pescadores, embora sabendo que não há mais nada a fazer neste lago decididamente poluído e estéril, sejam suficientemente loucos para acreditar nas suas palavras encorajadoras e não se resignem. Seremos suficientemente loucos para confiar no inesperado, suficientemente abertos para nos deixar surpreender, suficientemente aventureiros para seguirmos o Homem de Nazaré nas imprevisíveis estradas da pós-modernidade?


[1] “La quatrième hypothèse sur l’avenir du christianisme”, Desclée, Paris, 2001

[2] Cf. ” A New Kind of Christianity”, HarperOne, San Francisco, 2010

Deixe uma resposta