O movimento das igrejas emergentes

O pastor Pedro Brito nasceu em 1973 numa família presbiteriana, tendo-se licenciado em Teologia na Universidade Católica de Lisboa, onde encontrou a sua esposa Elisabete, católica romana, igualmente teóloga e enfermeira especializada em cuidados intensivos. O casal tem duas filhas.

Em 2008 foi ordenado pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e obteve, em 2014, o grau de ” Master em teologia pastoral ” nas Universidades de Neuchâtel-Lausanne-Genève. Exerce atualmente o ministério pastoral na paróquia de Monthey (Igreja Reformada Suíça, Cantão do Valais)

 

 

ENTREVISTA (Monthey, 2 de junho de 2021)

ItineráriosO pastor Pedro Brito, redigiu há poucos anos um trabalho de pesquiza sobre as Igrejas emergentes. Pode descrever-nos esse movimento eclesial?

PB – As igrejas emergentes são comunidades cristãs inovadoras, que desejam pôr em prática o Evangelho dentro das culturas pós-modernas e consideram que a Igreja, como organização, é uma realidade provisória enquanto o Reino de Deus é eterno. Trata-se de um movimento que integra a noção de “mudança” e de crise, como uma oportunidade para a Igreja atual.

ItineráriosDiga-nos como é que tudo isso começou…

PB – No final do século XX falava-se que o cristianismo estava em crise. A crise consistia na diminuição progressiva e constante do número de pessoas que frequentava as Igrejas. A constatação era observada internamente (menos pessoas que vinham aos serviços religiosos, cultos, por exemplo) e externamente (dados sociológicos). Curiosamente, pensava-se que a crise existia somente na Europa ocidental, mas, precisamente esses dados sociológicos permitiam constatar que, mesmo nos Estados-Unidos a crise era real. Esta situação, para alguns urgente, era mais grave no protestantismo. As Igrejas originarias da Reforma e com uma maneira tradicional de funcionar estavam a esvaziar-se. O Movimento da Igreja Emergente (Emergente Church Movement ou ECM) surge, nesta altura e neste contexto, precisamente nos Estados Unidos. O ECM irá, nos vinte anos seguintes, influenciar as Igrejas tradicionais protestantes na Europa nas suas tentativas de escapar a essa crise.

Itinerários Não se trata, portanto, de uma nova denominação protestante…

PB – Não, não é uma nova Igreja ou uma nova instituição cristã. Trata-se de um movimento transversal. Aquilo que o caracteriza é a convicção de que não existe uma versão definitiva e absoluta de Igreja ou do ser cristão. Os cristãos e as Igrejas serão sempre imperfeitos. Na sociedade pós-moderna questionamos tudo… e é difícil viver assim! Mas é esse o terreno da fé. Daí a necessidade de pensar a religião cristã, fundamentalmente, como em constante mudança e abandonarmos o raciocínio dedutivo quando falamos de Igreja. Como dizia Santo Agostinho “Não queiras entender para crer; crê para que possas entender. Se não crês, não entenderás”! Eis uma oportunidade para as igrejas abandonarem os sistemas perfeitos e assumirem os paradoxos da vida, numa base de confiança. Abandonar e abandonar-se.

ItineráriosPode ser mais concreto?

PB – A sociedade atual dá cada vez mais atenção ao que cada pessoa vive e partilha com os outros e menos aos sistemas ideológicos ou filosóficos. O posicionamento existencial é de pôr tudo em causa. Procura-se a verdade, mas ela nunca é definitiva. Atualmente, a reflexão parte da experiência individual em direção ao conhecimento e não o contrário, como acontecia na modernidade. De certa maneira, pode-se dizer que Jesus fazia a mesma coisa quando contava parábolas. A “verdade” que as pessoas encontram hoje na Igreja e que faz com que nela permaneçam, não reside nos sistemas teológicos bem elaborados, completos, fechados, mas sim nas manifestações simples de honestidade, autenticidade e transparência. Admitir a fraqueza e a imperfeição traz mais pessoas à Igreja do que se imagina…

ItineráriosQuais são as motivações das Igrejas emergentes?

PB – Como acabei de dizer, o ponto de partida é a convicção de que o cristianismo é um movimento permanente. O que as motiva é, por conseguinte, é implementação de um novo paradigma eclesial que põe de lado, definitivamente, a atitude cristã conservadora tradicional que supõe que “os cristãos são melhores que os outros” e a velha ideia de que existe uma separação entre a Igreja e o mundo. Pelo contrário, a palavra de ordem do movimento é o diálogo permanente com a cultura contemporânea ocidental. A comunidade cristã deve, pois, inserir-se na comunidade humana. Deixar de lado a ideia de que temos um destino e focalizarmo-nos no caminho, permite aproveitar melhor a viagem, o que está à nossa volta, a paisagem, as belas coisas que encontramos pelo caminho.

ItineráriosMovimento significa, então, partir para o desconhecido, assumir a itinerância…

PB – Sem dúvida. Tal como os nossos contemporâneos que vivem num mundo novo, tecnológico, imprevisível, e que buscam sentido para as suas vidas.  A Igreja pode ajudar essa procura se ela também estiver disposta, em vez de esperar passivamente o Cristo prometido, começar a viver com um Jesus que caminha ao nosso lado. No fundo, é esse o ensinamento do princípio do livro dos Atos dos Apóstolos: deixar de olhar para o céu e viver a presença do Espírito do Ressuscitado.

ItineráriosQue significa essa caminhada?

PB – A missão da Igreja emergente deixa de ser “transmitir verdades” e passa a ser “caminhar” na procura da Verdade. Os cristãos que se inspiram deste movimento estão sempre numa atitude de procura de uma vida mais plena e feliz, não porque estejam permanentemente insatisfeitos, numa postura centrada no desejo constante de viver ainda melhor, mas porque a vida cristã, individual ou comunitária é, de facto, uma caminhada e não está separada da vida experiencial humana, vivida na sua integralidade. Ser cristão, não é uma solicitude exclusivamente espiritual ou intelectual, é também uma experiência física. Cristo veio salvar o ser humano na sua integralidade e a sua missão não teve lugar exclusivamente nos locais religiosos com pessoas que se parecem connosco. A Igreja deve concentra-se nas questões centrais ligadas à sua missão e deixar em segundo plano as outras. Por exemplo, são questões essenciais tudo o que é relativo à Espiritualidade, à Justiça, à Paz e à salvaguarda da Criação. São questões secundárias, por exemplo, assuntos como a gestão financeira ou de género que tanto afetam as Igrejas atualmente. A comunidade cristã deve alargar os seus horizontes e escutar outras grupos e religiões, assim como as pessoas sem religião, pois “o Espírito sopra onde quer”.

ItineráriosE no que diz respeito à missão espiritual da Igreja?

PB – O movimento das Igrejas emergentes considera que a Igreja deve passar mais tempo a celebrar e a agir, do que a discutir.

Itinerários Há, no entanto, questões éticas e doutrinais sobre as quais a Igreja dificilmente pode dificilmente abster-se…

PB – A atitude existencial dos pensadores do ECM é de aceitar o paradoxo da vida, em Deus. Deste modo, o objetivo da vida cristã não é pronunciar-se sobre todas as questões, resolver todos os problemas ou eliminar todas as imperfeições, mas ser agente de diálogo e reconciliação, aceitando a riqueza paradoxal da vida. Isto inclui o respeito das diferenças, uma dinâmica relacional, sem que isso signifique o amalgamento de todas as opiniões e comportamentos. Eu disse que a vida é frequentemente paradoxal. Ora, isso não significa que ela seja ininteligível, mas sim que ela é complexa, irredutível às soluções simplistas. Não esqueçamos que a Bíblia está cheia de paradoxos e o maior deles todos é a morte do Filho de Deus (como se sabe, fazem parte da herança da Igreja os paradoxos da Trindade, a afirmação que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus). No que diz respeito às questões éticas, em particular bio-éticas, dada a sua complexidade, os cristãos do século XXI deveriam procurar ter primeiramente um olhar cheio de compaixão e de doçura, em vez de julgamento. Para o ECM o mais importante é a proximidade às pessoas e às suas buscas. As comunidades emergentes acolhem todos as mulheres e todos os homens sem que lhes sejam colocadas, antecipadamente, questões no que diz respeito à sua condição, seja ela de ordem espiritual, financeira, sexual ou moral. A comunidade cristã não é, nem nunca foi, um ajuntamento de pessoas moralmente irrepreensíveis. Ela é um conjunto de pessoas que se comprometem a caminhar com Jesus Cristo e a decifrar a complexidade das suas vidas à luz do Evangelho, justamente porque Jesus aceitou caminhar com pecadores.

Itinerários A missão da Igreja tem sido compreendida como um apostolado, isto é, proclamar o Evangelho e fazer discípulos. Ora, a impressão que retiramos do que acaba de dizer é que as Igrejas emergentes, em vez de focalizarem os seus esforços evangelizadores no objetivo de terem mais membros nas suas comunidades, centralizam a missão no desenvolvimento de novas formas de presença na sociedade, independentemente dos resultados…

PB – De facto, as comunidades ligadas ao ECM inverteram a lógica evangelizadora típica dos meios evangélicos ou evangelicalistas  norte-americanos. O objetivo é abrir as portas das igrejas, não para que as pessoas entrem, mas para que os seus membros saiam, não para voltarem mais tarde com mais membros “nos bolsos”, mas para alimentarem ativamente as relações humanas onde quer que elas se vivam. Parte-se do princípio de que encontramos Deus também fora dos muros (extra muros) das igrejas e que eu, enquanto membro de uma comunidade cristã, posso desenvolver a minha fé no encontro com pessoas que não são membros de igreja. Os pensadores ligados ao ECM colocam igualmente a possibilidade que os ensinamentos dos Evangelhos se encontrem fora dos escritos canónicos, que se encontrem noutros textos profanos ou sagrados de outras religiões. Eles põem mesmo a hipótese que a História de Revelação não está fechada com a redação do último livro da Bíblia. A Bíblia é fundamental, mas não exclusiva, pois a Revelação é presente e dinâmica, característica do Reino de Deus anunciado por Jesus Cristo; Jesus é o único salvador, mas de uma maneira inclusivista; Cristo estará presente, de algum modo, noutras culturas e religiões, o que só pode ser um motivo de alegria para os cristãos e renovar a sua compreensão da Revelação.

ItineráriosE no que diz respeito à vida interna das comunidades cristãs?

PB – No concreto, as comunidades ligadas ao ECM propõem que as Igrejas sejam compassivas, amáveis e abertas. Comunidades onde se está pronto a correr o risco de viver sempre o presente de Deus em detrimento dos cuidados temporais, como sejam o número de membros, a organização e a ortodoxia doutrinal. Comunidades onde se criam espaços onde não há medo de expor a vida pessoal, onde se pode correr o risco de expor as fraquezas pessoais. Comunidades onde podemos compartilhar, em doçura e humildade, as vidas de fé, numa aceitação incondicional e mútua, sem julgamentos. Comunidades capazes de abrandar o ritmo doido da vida quotidiana.. Comunidades onde se pode descobrir a presença e a beleza de Deus. Comunidades abertas à alteridade, que procuram ser criativas em vez de promoverem as soluções feitas. As Igrejas do futuro serão cada vez mais comunidades de base e cada vez menos denominações. O importante é a comunidade concreta, que vive autenticamente o evangelho. No futuro, pouco importa ser protestante ou católico. O diálogo ecuménico terá como alvo atingir a unidade no Espírito em vez da Unidade visível…

ItineráriosÉ talvez o que se pode chamar uma visão de Esperança…

PB – Se se pode resumir o propósito último do ECM, eu diria: que as comunidades cristãs sejam autenticamente a Igreja de Jesus Cristo, simultaneamente contemplativas e ativas na sociedade! A cosmovisão tradicional cristã supõe que a História é uma espiral descendente até ao momento da segunda vinda de Cristo. Para os pensadores do ECM a fé, a redenção e a criação estão presentes, no coração da vida, para fazer avançar a História.

Itinerários Referiu-se há pouco a comunidades cristãs onde se pode descobrir a beleza de Deus. Que quer isso dizer?

PB – Isso significa que tais comunidades são sensíveis às expressões artísticas e que elas utilizam nas suas celebrações formas artísticas como o teatro, a dança, a pintura ou os filmes. A arte contemporânea, com a sua liberdade e subjetividade, com os seus questionamentos e interatividade, é privilegiada. Por outro lado, essas comunidades ligadas ao ECM, reintroduziram também praticas como a “Lectio Divina” e a oração contemplativa silenciosa, que abrem novos espaços cultuais despojados do que não é essencial, para que neles Deus se manifeste.

ItineráriosDe que maneira o movimento das Igrejas emergentes pode contribuir para a renovação das Igrejas tradicionais e ajudá-las a lutar contra a diminuição drástica do número de membros e a sua insignificância social?

PB – Eu penso que as Igrejas tradicionais já estão a ser influenciadas pelo movimento emergente. Gostaria, no entanto, de sublinhar 7 pontos que poderiam ser pertinentes para as Igrejas tradicionais:

  1. No que diz respeito aos cultos, as comunidades ligadas ao EMC continuam a considerar a pregação como importante, mas a sua forma dialogada é privilegiada porque é a comunidade que tem as chaves de leitura da realidade e não o pastor ou o teólogo. Além disso, tentam lutar, com todos os meios ao seu alcance, contra a tendência crescente, pós-moderna, da manipulação ativa efetuada por um líder carismático. Embora algumas Igrejas protestantes tradicionais tenham reencontrado o equilíbrio entre a Palavra e a Eucaristia, no decorrer do século passado, essencialmente devido ao diálogo ecuménico, as Igrejas emergentes celebram deliberadamente e festivamente tanto a Palavra como a Comunhão. Eu destacaria ainda, do ponto de vista litúrgico, a postura de humildade em relação a Deus. O culto deixou de ser um cerimonial austero para ser habitado por um clima informal e mais familiar, um momento onde se celebra a normalidade da presença de Deus na vida.
  2. A criação artística deve ser vista como sendo uma prática sagrada que estimula a relação com Deus. A valorização do que é visual e artístico, como acesso privilegiado à experiência espiritual, é algo que põe em fase estas comunidades com a sensibilidade pós-moderna. A arte permite potenciar a experiência relacional com Deus.
  3. A aceitação e a incorporação de todos os meios contemporâneos de comunicação compatíveis com o culto cristão, são indispensáveis. Os meios de comunicação servem a missão da igreja e podem também potenciar a participação dos membros da comunidade e alargar os seus horizontes.
  4. O mais importante não é ser nominalmente uma comunidade, mas viver em comunidade; não ser uma comunidade religiosa, mas uma comunidade humana que permite a todos os indivíduos de se sentirem acolhidos, envolvidos e valorizados. A Igreja não tem uma missão a cumprir, a Igreja é missão e esta consiste em promover uma comunidade aberta.
  5. A teologia do ECM é uma “ortodoxia generosa”, ou seja, uma teologia suficientemente aberta para incluir toda a gente, desde que se aceite que a discussão das diferentes convicções e opiniões é uma coisa normal para a comunidade cristã. A fronteira é a linha que separa aqueles que aceitam dialogar dos que tentam impor a sua “verdade” teológica.
  6. Assumir decisivamente o sacerdócio universal de todos os crentes. “Leigos” e “pastores” têm a mesma importância no seio do” staff”. Sabe-se, hoje, que as empresas que estimulam a participação e a responsabilidade coletiva estão mais bem preparadas para fazer face aos desafios do futuro. No que diz respeito aos atos eclesiásticos, o pastor deixa de ser aquele que os monopoliza, mas alguém que delega, encoraja e confia esses atos a alguém com carisma para os realizar.
  7. Adaptar os edifícios tradicionais. Não é por acaso que a maior parte das comunidades emergentes escolheu os edifícios de igrejas tradicionais para se reunirem. Exteriormente, esses imóveis transmitem uma mensagem de presença da transcendência. Como o faz, aliás, a Arte. No entanto, as igrejas foram decoradas com mobiliário contemporâneo, agradável à vista e confortável, de modo que as pessoas possam sentir-se à vontade, em confiança e em família.

Diga-se em jeito de balanço, no que diz respeito à Europa, que todas estas ideias são conhecidas e debatidas no seio das Igrejas tradicionais. No entanto, apesar de algumas experiências, essas Igrejas hesitam bastante a pô-las em prática em larga escala, provavelmente devido à indiferença ou mesmo oposição da maioria das pessoas que participam nos cultos, demasiado idosas para se aventurarem neste terreno desconhecido. Por outro lado, a sociedade evolui de tal maneira rapidamente que, apesar da sua pertinência, o ECM perdeu força. Na medida em que vivemos uma transição acelerada de uma sociedade pós-moderna para uma sociedade tecnológica, vinte anos é muito tempo! Sobretudo quando as crises ecológica e sanitária pressionam a Humanidade para mudar. Estamos no fim de uma sociedade pós-moderna. E o ECM foi pensado para essa sociedade. No entanto, acredito que, com o ECM ou sem ele, com as Igrejas tradicionais ou sem elas, a Igreja de Jesus Cristo saberá prosseguir o seu caminho de modo a cumprir a sua missão. A Igreja é movimento.

Entrevista de Joel L. Pinto, em 4 de junho de 2021

Sugestões de leituras:

GIBBS, Eddie et BOLGER, Ryan, Emerging Churches, Grand Rapids, Baker Academic, 2005.

JONES, Tony, The Church is Flat, The Relational Ecclesiology of the Emerging Church Movement, Minneapolis, The JoPa Group, 2011.

MCLAREN, Brian, A Generous Orthodoxy: Why I Am a Missional, Evangelical, Post/Protestant, Liberal/Conservative, Mystical/Poetic, Biblical, Charismatic/Contemplative, Fundamentalist/Calvinist, Anabaptist/Anglican, Methodist, Catholic, Green, Incarnational, Depressed-yet-Hopeful, Emergent, Unfinished CHRISTIAN, Zondervan, 2004

McKnight, Scot., “Five Streams of the Emerging Church: Key Elements of the Most Controversial and Misunderstood Movement in the Church Today.”, Christianity Today, fevereiro de 2007, 35-39.

ODEN, Patrick, The Transformative Church: New Ecclesial Models and the Theology of Jürgen Moltmann. Minneapolis: Fortress Press, 2015.

PAGITT, Doug et Jones, Tony (Ed.), An Emergent Manifesto of Hope, Grand Rapids, Baker Books, 2007.

Deixe uma resposta