Teologia da libertação

Alain Schwaar é diácono da Igreja Reformada Suíça. Depois de terminar a sua licenciatura em direito, partiu para Moçambique, ao serviço da Igreja Presbiteriana, tendo participado no processo de transição para a independência. De volta para a Suíça, diplomou-se em ciências sociais, trabalhou na área da proteção da infância, em La Chaux-de-Fonds, e exerceu o ministério diaconal na Igreja Reformada. Interveniente em terapia social, animou seminários na Suíça, França, Angola e Nicarágua. No quadro da atividade da Associação “Dire et Agir”, interviu durante oito anos no Haiti animando, em particular, seminários sobre a violência escolar e conjugal. Em fevereiro do último ano esteve em Lisboa para participar num seminário sobre “Teologia contextual” no Centro de Estudos Religiosos da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal. Este texto é o resumo a sua comunicação.

Esta breve reflexão inspira-se do pensamento de Ruben Alves (cf. Christianisme, opium ou libération, Cerf, Paris, 1972) e de Enrique Dussel (cf. Histoire et théologie de la libération, Ed. Ouvrières, Paris, 1974), dois teólogos sul americanos, respetivamente presbiteriano e católico romano, que se inscrevem na “Teologia da Libertação”, corrente teológica que surgiu na década de 1960, na América latina.

Teologia, opressão e libertação

Entre as componentes históricas do cristianismo deve mencionar-se o helenismo. A nossa cultura provém da filosofia helenística. Os cristãos aceitaram, desde os padres apologistas, uma lógica de origem grega, que raciocinava através de silogismos: os princípios são primeiramente estabelecidos e só depois se chega ao argumento e à conclusão. Isso influenciou fortemente a teologia cristã.

No entanto, o método teológico bíblico sempre partiu da história. Como se sabe, o Antigo Testamento, a Bíblia dos primeiros cristãos, contem uma forma de pensar semítica. Para os hebreus, a história é uma narrativa interpretativa que supõe que Deus intervém no real. A História é assim uma reflexão sobre o passado numa relação dialética com o presente: tanto o presente encontra o seu significado no passado como o passado encontra na existência presente o seu significado! Até ao final do século I, foi esse o método teológico dos primeiros cristãos. Porém, devido ao contacto com o mundo helenístico, aconteceu uma rutura. A teologia que era até então uma descrição e uma interpretação da ação de Deus na história, torna-se uma teologia argumentativa e racional. Passa-se da figura do profeta à figura do apologista. O profeta é aquele que está conectado com a realidade, que descobre o significado do presente numa relação dialética com o passado. O apologista é aquele que estabelece princípios e que, só depois, reflete sobre a realidade. Assim, na Europa, fomos possuídos por esta forma de pensar “à maneira grega”, isto é, dedutiva, idealista, que não se apoia no concreto da vida e que nos levou a dominar o mundo a partir de princípios supostamente divinos, indubitáveis. Aprendemos a pensar a partir dessa dominação, já não partimos da história, mas sim de postulados ideológicos.

Contrariamente, um africano ou um sul-americano começam a pensar a partir da sua situação de oprimidos, de maneira mais terra a terra, ou seja, a partir da sua experiência. Por isso o seu olhar é diferente. Em termos bíblicos, a teologia pensada a partir da escravatura no Egito não é a mesma que a teologia do Faraó ou dos seus sacerdotes.

A Teologia da libertação emancipa conceitualmente a Igreja

Mas a partir desta visão mais terra a terra, pode ocorrer a formulação de novos caminhos para a Igreja. Se o ideal de perfeição para os gregos é o sábio, para os semitas, o ideal é um ser humano que age no interior de uma comunidade e se compromete na história. O ideal da perfeição para um semita é o profeta e é esta figura que precisa de ser urgentemente valorizada na Igreja atual.

A teologia da libertação sensibiliza-nos, precisamente, para esta influência helenizante naquilo que ainda é o cristianismo para nós, e permite-nos redescobrir a respiração dos profetas e da tradição semítica, que é, finalmente, a base do cristianismo histórico. Convida-nos a libertar a Igreja do idealismo.

A maneira como os papéis dos actores estão distribuídos na Igreja, exclui, de facto, os fiéis no que diz respeito à sua participação nas decisões. Os quadros da Igreja podem muito bem renovar-se, mas a situação permanece bloqueada como resultado de uma estrutura eclesiástica que não permite que os leigos influenciem as decisões dos dirigentes.

Uns sabem, outros não. Ora, precisamos de pensar de maneira dialética. A dialética, não pensa a substância, mas sim a relação. Não parte de “uma” substância ou conteúdo, mas habitua-nos a pensar em dois ou mais movimentos, em relações que se implicam mutuamente. Isto é profundamente bíblico. Veja-se, por exemplo, a Trindade, que é incompreensível sem uma dialética que implica que dois termos devem ser pensados em conjunto (por exemplo, a relação Pai – Filho) não como uma substância, mas como uma relação.

Nesta perspetiva, a Teologia da libertação valoriza a relação com o próximo, com aquele que está no caminho que eu percorro, o irmão de que me aproximo. Será que sou o próximo daquele que caiu no meio dos assaltantes, será que sou o próximo dos oprimidos, dos dominados? Preciso de sair do meu mundo, do meu “tudo”, para entrar na relação dominante-dominado? O dominante, o possessor, faz de outro homem uma coisa de que se serve. E isso é o pecado: fazer de um ser humano um objeto e colocá-lo ao seu serviço! É este projeto do dominador que está na base da opressão dos dominados, dos oprimidos. Os dominantes negando a vida aos outros e a sua liberdade, matam, de algum modo, o próximo e afirmam-se como únicos, numa totalidade idólatra (sacralização de si mesmo em vez da alteridade)

Contra esta situação também as mulheres falam: há revolta quando a Palavra, que não sabe como dizer-se, se torna choro e queixume de cortar o coração. Na sua revolta, as mulheres dizem “não”, reclamam os seus direitos, por vezes sem mesmo saber nomeá-los e sem se aperceberem que estão a clamar por justiça.

É-nos recordado, neste contexto, que a luta contra o pecado, contra a opressão do homem pelo homem, é uma luta necessária, exigida pela fé, porque também é luta contra todos aqueles que se consideram a si mesmos deuses e contra os projetos que visam os absolutos (idolatria). É uma posição crítica que não pode ser expressa unicamente em palavras, mas que é basicamente uma questão de ação.

“Sejamos profetas”, diz-nos Dussel, e isso significa exercer uma função crítica e libertadora no mundo. Comprometamo-nos. E isso significa aqui, entrar na história, sujar as mãos, não no pecado, mas colocando-nos do lado dos pobres e dos oprimidos. Por exemplo, isto exige que os estrangeiros em África renunciem a qualquer mentalidade de conquista e ao espírito de dominação para serem transformados em contacto com o Evangelho vivido entre os africanos, de acordo com um modo de relacionamento que escapa a qualquer forma de violência simbólica, económica e política.

Os pobres acabam sempre por compreender que não são pura e simplesmente pobres, mas que os reduziram à pobreza, portanto, uma pobreza que é o resultado de uma relação onde os poderosos dominam e controlam a vida dos fracos. Assim, a vida das nações não é concebida de acordo com as necessidades dos fracos, mas de acordo com as necessidades da economia dos grupos dominantes. Em suma, os fracos não são os actores do seu próprio desenvolvimento ou os criadores da sua própria história. O processo tornou-se cada vez mais anónimo e impessoal pois nenhuma relação pessoal de dominação se estabelece entre os que estão no poder e os que lhes são submissos.

Há que fazer aqui uma distinção entre comportamento pessoal e coletivo. O amor deve permitir-nos expressarmo-nos em situações de conflito e de luta. Temos de amar o suficiente para recusar o intolerável a que se foi sujeito ou a quem estamos a sujeitar. Mas amar os oprimidos é lutar com eles. É também esta a única forma de amar os opressores, sabendo distinguir a classe e o indivíduo. A nível teológico, trata-se de enfrentar os conflitos, as lutas, e proclamar a esperança. É clarificar a relação entre o conflito de classes e o amor cristão. Verifica-se assim que há pessoas dominadas a lutar pela sua liberdade e dignidade (negros, mulheres, desempregados, jovens) e dominantes que combatem pela manutenção e extensão dos seus privilégios. A boa notícia para os pobres significa que os ricos vão perder alguma coisa. A libertação dos escravos significa que os proprietários de escravos são ameaçados. A libertação dos cativos significa ainda que aqueles que os mantiveram em cativeiro fariam bem em se preocuparem com isso.

A luta das classes, ou a luta de classe, para usar as palavras originais, é um facto, e a neutralidade nesta matéria é impossível. A fórmula ‘luta de classe’ não significa ódio entre as classes sociais, mas o antagonismo fundamental e inevitável das classes. Reconhecê-lo não depende de opções éticas e religiosas. A luta de classes é inevitável porque, embora seja possível viver sem lutar, na submissão e na escravidão, não é possível ser dominante sem dominar e oprimir.

Biblicamente, o problema não é não ter inimigos, mas sim excluí-los do nosso amor. Não os excluir significa que eles existem. É a partir da descoberta deste nosso condicionamento que pode nascer a teologia. O que temos de pensar é a nossa situação de opressão. É um caminho que só aquele que a vive pode descrever e suportar, aquele que se está a libertar. O que temos de pensar é, portanto, a nossa situação de opressão.

O profetismo tem de começar por denunciar os conflitos e as suas fontes. Os textos bíblicos são eloquentes e inequívocos; os conflitos e as suas fontes são claramente denunciados no Antigo Testamento. Vale aqui a pena notar, na minha opinião, que as lutas começam de cima, com aqueles que querem manter os seus privilégios. Um pedido reclamado e ouvido leva a uma discussão. Um pedido recusado significa que aquele que não quer ouvi-lo entra em conflito, cria o conflito, empurra para o conflito.

Tomar posição, depois de ter percebido que Deus “se revela” na prática do amor, significa agir mais do que falar, porque quando nos colocamos do lado dos pobres, quando decidimos ser o seu próximo, são eles que falam. Por isso, temos de nos interrogar: de quem é que eu escolho ser o próximo? Esta escolha dos pobres, dos oprimidos, é sempre concreta e contextual.

Tomar posição contra a violência é lutar contra todas as violências e, especialmente contra a primeira, a violência da injustiça legalizada, a violência da ordem ou melhor, da desordem estabelecida, que é a pior das violências. É a ordem do Faraó e não a das pragas do Egito. É essa a violência específica da Igreja, a violência que defende um novo “tudo” (absoluto) que deve advir. É a violência libertadora ou, como diz Dom Hélder Câmara, a pressão moral libertadora. Qualquer tentativa de resolver conflitos, se não se destina a ultrapassar as contradições, apenas os sufoca e serve as classes dominantes.

Tecnologia e opressão

Na linha da teologia da libertação, Rubem Alves fez uma análise crítica da noção de “tecnologismo”, uma questão bastante atual que não veríamos a priori conectada à situação de opressão presente na América latina. A sua análise sobre este assunto é particularmente interessante . Com efeito, ele define o tecnologismo como uma forma de consciência que vê a tecnologia como o caminho do futuro e que enumera as maravilhas da tecnologia como confirmação das suas teses!

O tecnocrata amplifica a sua autoridade em função dos estudos económicos teóricos, sem ter sempre em conta os fatores humanos. O tecnologismo é, portanto, a combinação de uma sociedade de alta tecnologia servida por tecnocratas. É a técnica vista como um fim em si mesma, servida por tecnocratas. E a prioridade tecnológica alia-se com a liberdade do capital.

Uma das questões importantes levantadas pelo tecnologismo é a possibilidade de nos libertarmos do trabalho manual e repetitivo, que acaba por oprimir e desumanizar. Ora, a tecnologia pretende saber como libertar o homem desta situação, graças aos tecnocratas que podem substituí-lo por máquinas. Mas, se os autómatos e os robôs substituírem o trabalho humano numa proporção tal que o desemprego em massa se tornar um fenómeno crónico, então a tecnologia significa um recuo da humanidade. Com efeito, o desemprego em massa leva diretamente à miséria, uma miséria que nos anos 30 conduziu ao fascismo e, a partir daí, à terrível guerra mundial. Se as novas tecnologias têm tais consequências, então temos de introduzir o controlo social destas tecnologias.

Proximo do filósofo e teólogo protestante francês Jacques Ellul, pioneiro da reflexão critica sobre a tecnologia e do seu impacto sobre a nossa civilização, Rubem Alves lembra-nos que a ideia  de que a Técnica é neutra é uma ilusão de que necessitamos urgentemente libertar-nos.

Lembremo-nos que para Ellul (cf. Théologie et technique, Genève, Labor et Fides, 2014), é, de facto, uma ilusão acreditar que é o homem quem a controla, de que o material e o espiritual coincidem, de que se o nível de vida se elevar o homem se tornará melhor e mais inteligente. É ainda uma ilusão pensar que, através da Técnica, se alcança a felicidade, que a Técnica é científica e racional, que se pode ter e acumular todas as vantagens (a virtude e o poder ou a riqueza), que os meios de comunicação criam verdadeiras relações entre as pessoas, que a multiplicidade de informação produz um tipo de homem informado, presente no mundo, que a globalização resulta na criação de uma mente aberta e liberal, que o crescimento é infinito. A crença no potencial de recuperação ilimitada do ambiente natural, na riqueza infinita deste ambiente, na possibilidade de o homem crescer indefinidamente e de que sempre haverá espaço é, finalmente, a ilusão do progresso. Ora, é esta acumulação de ilusões que nos impede de ver a realidade, cegueira que só existe na medida em que subsiste uma espécie de idolatria dos meios ou da Técnica, garantindo-nos que essas ficções são, de facto, a realidade autêntica. Mas se quisermos repensar estas ilusões uma a uma, descobriremos que cada vez que isso acontece, a ilusão foi produzida pela confiança cega, por uma fé na Técnica considerada como uma divindade magnânima e infinitamente rica, com potencialidades inesgotáveis.

Alain Schwaar

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