Assim suspira a minha alma por Ti, ó Deus!

Salmo 42(41)

Tradução de João Ferreira de Almeida (1628-1691), nascido em Torre de Tavares, exerceu o ministério pastoral na Batávia (Indonésia) ao serviço  da Igreja Reformada Holandeza. Foi o primeiro tradutor da Bíblia em língua portuguesa.

“Como o cervo (=veado, corça) brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?

As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, porquanto me dizem constantemente:  onde está o teu Deus?
Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma; pois eu havia ido com a multidão;
fui com eles à casa de Deus, com voz de alegria e louvor, com a multidão que festejava…

Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença!”

O Salmo 42 (41 nas bíblias católicas) é uma súplica que exprime uma relação profunda e intensa com Deus.

O salmista vive dias angustiantes. Exilado na Babilónia, não lhe é possível cultuar no Templo de Jerusalém e a sua fé é escarnecida por aqueles que consideram o seu Deus inoperante (“Onde está o teu Deus?”)

Apesar de ter perdido a alegria (“as minhas lágrimas servem-me de mantimento”), provavelmente deprimido (“a minha alma está abatida”), o orante lembra que o deus absconditus está paradoxalmente presente no meio do seu sofrimento (“contudo o Senhor mandará de dia a sua misericórdia e de noite a sua canção”) e repensa a sua experiência espiritual, exortando-se a si mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus…”.

O Saltério de Genebra (1540)

Este Salmo foi versificado e musicado no século 16, em Genebra, onde o culto celebrado pela Igreja Reformada era bastante austero, consistindo em leituras bíblicas, comentários (homilias) e cânticos entoados em uníssono e a capella, isto é, sem acompanhamento instrumental. Temia-se que os instrumentos musicais, especialmente os de sopro e percussão, pudessem distrair a assembleia. É só a partir do século 17 que o órgão ocupa um lugar relevante no culto reformado e luterano.

A antiga hinologia protestante é um património litúrgico notável. Em Genebra, o saltério foi versificado por Clément Marot (1496-1554) e Théodore de Bèze (1519-1605) com melodias principalmente de Claude Goudimel (c. 1520-1572) e de Louis Bougeois (1510-1559). Na Alemanha, surgem cânticos de uma grande qualidade musical e poética, como os de Johannes Krüger (1598-1662), Johannes Eccard (1553-1611) e Paul Gerhardt (1607-1676). João Sebastião Bach utilizou muitos deles na sua monumental obra musical.

Ouça a interpretação da Comunidade monástica ecuménica de Taizé:

 O Oratório (1623), capela real de Luís XIII, tornou-se um templo protestante em 1821, quando Napoleão o disponibilizou para a celebração do culto da Igreja Reformada Francesa. Foi junto a este edifício religioso que começou o massacre dos Huguenotes (protestantes reformados) no dia de São Bartolomeu em 1572,estendendo-se em seguida a toda a França, fazendo cerca de 30.000 mortos. É neste templo que se encontra o memorial em honra do almirante Gaspard de Colligny, chefe do partido huguenote e assassinado neste lugar durante o massacre.

 

 

Imagem: Um culto no Oratório do Louvre

Versificação do Saltério de Genebra:

Comme un cerf altéré brame, pourchassant le frais des eaux,
Ô Seigneur, ainsi mon âme soupire après tes ruisseaux.
Elle a soif du Dieu vivant et s’écrie en le puisant:
“O mon Dieu, quand donc sera-ce que mes yeux verront ta face?”

Mon seul pain, ce sont mes larmes, et nuit et jour en tous lieux;
Chaque fois qu’en mes alarmes on me dit: “Que fait ton Dieu?”
Je regrette la saison où j’allais dans ta maison,
Chanter avec les fidèles tes louanges immortelles.

Mais pourquoi, mon âme encore, frémis-tu d’un tel effroi?
Quand déjà parait l’aurore et que Dieu prend soin de moi?
Un regard dans sa faveur me dit qu’il est mon Sauveur.
Il te faut louer, mon âme, ce grand Dieu que je réclame

 Versificação do Salmo 42 em português:

Como a corça que suspira pelas águas a correr,
A minh’alma, assim suspira, sim, por Ti anseia ó Deus!
A minh’alma sede tem: quer beber a água viva,
Invocar-te noite e dia, Te louvar com alegria!

Quando a angústia me atormenta e a tristeza me destrói,
Há quem diga, escarnecendo: o teu Deus onde estará?
Lembro então a plenitude que vivia nesses dias:
No Teu templo te adorava e o Teu nome proclamava!

Por que estás ansioso e triste? Não te canses de esperar…
O que são os teus receios quando Deus lhes vai pôr fim?
Ele a onda má quebranta, nos seus braços te acalenta.
Tem confiança ó minh’alma, porque Deus te salva e ama!

Tradução e adaptação de J. L. Pinto, a partir de uma antiga versificação de Manuel Porto Filho (Brasil).

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